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Culpa e Punição - Responsabilidade e Reparação

27 de jul. de 2022
4 min de leitura

Atualizado: 18 de ago. de 2022






O Perdão é um termo católico que representa o contrário de culpa. Só existe o perdão, porque existe a culpa, da mesma forma que para existir a culpa precisa ter existido o pecado. Para os cristãos, todos já nascem com o pecado original, já que somos todos gerados a partir do ato sexual.

Desde a primeira infância, somos levados a aprender e internalizar esses termos e conceitos por vias institucionais típicas de uma sociedade burguesa (família, igreja, escola), como a nossa. Tais termos acabam adquirindo importante conotação e simbologia, mesmo para quem está distante de pertencer às religiões cristãs ou mesmo para quem nem sequer acredita em Deus.

Não vamos aqui discutir as religiões. Cada pessoa concebe o Divino (ou não o concebe), de acordo com suas singularidade, e toda as formas de religião e religiosidade devem ser acima de tudo respeitadas. Até mesmo aqueles que não acreditam no Sagrado devem ser respeitados, ninguém deve ser obrigado a acreditar ou não acreditar no que quer que seja. Isso porque a psicologia não está para julgar, mas para compreender, analisar e, acima de tudo, cuidar dos sofrimentos que muitas vezes são gerados pela compreensão que as pessoas tem do mundo e das coisas que os cercam, como por exemplo a culpa. Não há como negar que o sentimento de culpa gera muito sofrimento nas pessoas em todas as épocas históricas da humanidade, desde que este conceito se estabeleceu como algo dado de fora pra dentro e que aqueles que não se encaixam em determinados modelos pré-estruturados por essa sociedade estão fadados ao fracasso, ao pecado, e por consequência à culpa. Estamos aqui apenas para tratar sobre o significado da culpa e o que ela gera na psiquê das pessoas.

Freud aborda o fenômeno da culpa em muitos dos seus livros: "Mal-estar da sociedade", "Totem e Tabu", "Psicologia das massas e análise do ego", e concebe a culpa como um elemento interno que nos vigia dia-e-noite e nos condena diante a qualquer tentativa de infringir aquilo que é socialmente aceito e estabelecido. Ora, mas não é possível dar vasão a todos os nossos desejos sem ferir tal ordem. Muitas vezes, nossos desejos escusos ferem inclusive qualquer possibilidade manutenção de um padrão ético-social. Vemos aqui então, que a culpa atua no lugar da manutenção de um pacto social, para que seja possível convivermos em sociedade. Mas, qual é o fator patológizante da culpa? Toda culpa exige uma reparação ou uma punição. Quando isso não acontece a partir do que é externo, nossa psiquê atua de forma para que essa punição ou reparação aconteça de alguma forma.

Em "Crime e Castigo" de Dostoiewiski, o personagem Raskonikov precisa lidar o tempo todo com a culpa pelo assassinato de uma velha senhora que emprestava penhores a juros altíssimos e maltratava sua irmã. Raskonikov julga-a que pelo seu mal comportamento, ela deve morrer e planeja seu assassinato, aparentemente de forma impecável, porém no decorrer das investigações, Raskonikov vai deixando entrever-se nos rastros da sua culpa e comete atos falhos que o levam a ser identificado como principal suspeito.

Vimos até aqui então, que a culpa é um importante instrumento de controle social. Mesmo quando não somos vigiados pela sociedade, existe um elemento interno que nos vigia, nos condena e nos pune. O que nos leva ao sofrimento diante disso é que na ausência de um fator externo que nos puna dos nossos pecados, nós mesmos nos tornamos nosso próprio algoz.

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Existem várias maneiras de se autopunir por meio da culpa, através de mecanismos de autossabotagem, ou mesmo autoflagelação. Atualmente, vem crescendo o número de casos de automultilações entre jovens nos últimos anos. São cortes geralmente superficiais feitos intensionalmente na pele, com o auxílio de objeto ponteagudo em locais de fácil acesso, como braços e pernas e que podem ser facilmente escondido pelas roupas. Geralmente, tem a função de materializar a angústia e a dor que se sente, trazendo-a para a carne. Não necessariamente esse fenomêno esteja associado à culpa, mas em muitos dos casos, ela figura entre o cenário do quadro psíquico do sujeito que se automutila.

​Nosso inconsciente é organizado através de símbolos, é preciso ressignificá-los algumas vezes. É preciso substituir a CULPA por RESPONSABILIDADE; PUNIÇÃO por REPARAÇÃO, por exemplo. São termos que ao contrário da culpa, retiram o sujeito da passividade e lhes coloca na condição de sujeito ativo da sua história.

"Tenho responsabilidades diante das coisas e das pessoas, mas não tenho culpa pelo que elas pensam ou fazem em relação a mim, ou seja lá o que for. Reparo as coisas que deixei pra trás, por irresponsabilidade ou por omissão, mas não exijo do outro a mesma reparação, simplesmente porque cada pessoa tem sua história, sua vivência e experiência e não cabe exigir do outro algo que só deve ser exigido de si mesmo."

Não muda a estrutura da sociedade, mas muda a atitude perante si próprio e perante a sociedade, e este é um grande passo para diversas transformações.

O cuidado de si é o

início de um caminho que leva ao cuidado do outro.



Escrito por Alessandra da Silva Cavagna

Psicóloga Clínica e Social

CRP: 06/146634

Whatsapp: 11.944045942

 
 
 

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