Culpa e Punição - Responsabilidade e Reparação
Atualizado: 18 de ago. de 2022

O Perdão é um termo católico que representa o contrário de culpa. Só existe o perdão, porque existe a culpa, da mesma forma que para existir a culpa precisa ter existido o pecado. Para os cristãos, todos já nascem com o pecado original, já que somos todos gerados a partir do ato sexual.
Desde a primeira infância, somos levados a aprender e internalizar esses termos e conceitos por vias institucionais típicas de uma sociedade burguesa (família, igreja, escola), como a nossa. Tais termos acabam adquirindo importante conotação e simbologia, mesmo para quem está distante de pertencer às religiões cristãs ou mesmo para quem nem sequer acredita em Deus.
Não vamos aqui discutir as religiões. Cada pessoa concebe o Divino (ou não o concebe), de acordo com suas singularidade, e toda as formas de religião e religiosidade devem ser acima de tudo respeitadas. Até mesmo aqueles que não acreditam no Sagrado devem ser respeitados, ninguém deve ser obrigado a acreditar ou não acreditar no que quer que seja. Isso porque a psicologia não está para julgar, mas para compreender, analisar e, acima de tudo, cuidar dos sofrimentos que muitas vezes são gerados pela compreensão que as pessoas tem do mundo e das coisas que os cercam, como por exemplo a culpa. Não há como negar que o sentimento de culpa gera muito sofrimento nas pessoas em todas as épocas históricas da humanidade, desde que este conceito se estabeleceu como algo dado de fora pra dentro e que aqueles que não se encaixam em determinados modelos pré-estruturados por essa sociedade estão fadados ao fracasso, ao pecado, e por consequência à culpa. Estamos aqui apenas para tratar sobre o significado da culpa e o que ela gera na psiquê das pessoas.
Freud aborda o fenômeno da culpa em muitos dos seus livros: "Mal-estar da sociedade", "Totem e Tabu", "Psicologia das massas e análise do ego", e concebe a culpa como um elemento interno que nos vigia dia-e-noite e nos condena diante a qualquer tentativa de infringir aquilo que é socialmente aceito e estabelecido. Ora, mas não é possível dar vasão a todos os nossos desejos sem ferir tal ordem. Muitas vezes, nossos desejos escusos ferem inclusive qualquer possibilidade manutenção de um padrão ético-social. Vemos aqui então, que a culpa atua no lugar da manutenção de um pacto social, para que seja possível convivermos em sociedade. Mas, qual é o fator patológizante da culpa? Toda culpa exige uma reparação ou uma punição. Quando isso não acontece a partir do que é externo, nossa psiquê atua de forma para que essa punição ou reparação aconteça de alguma forma.
Em "Crime e Castigo" de Dostoiewiski, o personagem Raskonikov precisa lidar o tempo todo com a culpa pelo assassinato de uma velha senhora que emprestava penhores a juros altíssimos e maltratava sua irmã. Raskonikov julga-a que pelo seu mal comportamento, ela deve morrer e planeja seu assassinato, aparentemente de forma impecável, porém no decorrer das investigações, Raskonikov vai deixando entrever-se nos rastros da sua culpa e comete atos falhos que o levam a ser identificado como principal suspeito.
Vimos até aqui então, que a culpa é um importante instrumento de controle social. Mesmo quando não somos vigiados pela sociedade, existe um elemento interno que nos vigia, nos condena e nos pune. O que nos leva ao sofrimento diante disso é que na ausência de um fator externo que nos puna dos nossos pecados, nós mesmos nos tornamos nosso próprio algoz.
Existem várias maneiras de se autopunir por meio da culpa, através de mecanismos de autossabotagem, ou mesmo autoflagelação. Atualmente, vem crescendo o número de casos de automultilações entre jovens nos últimos anos. São cortes geralmente superficiais feitos intensionalmente na pele, com o auxílio de objeto ponteagudo em locais de fácil acesso, como braços e pernas e que podem ser facilmente escondido pelas roupas. Geralmente, tem a função de materializar a angústia e a dor que se sente, trazendo-a para a carne. Não necessariamente esse fenomêno esteja associado à culpa, mas em muitos dos casos, ela figura entre o cenário do quadro psíquico do sujeito que se automutila.
Nosso inconsciente é organizado através de símbolos, é preciso ressignificá-los algumas vezes. É preciso substituir a CULPA por RESPONSABILIDADE; PUNIÇÃO por REPARAÇÃO, por exemplo. São termos que ao contrário da culpa, retiram o sujeito da passividade e lhes coloca na condição de sujeito ativo da sua história.
"Tenho responsabilidades diante das coisas e das pessoas, mas não tenho culpa pelo que elas pensam ou fazem em relação a mim, ou seja lá o que for. Reparo as coisas que deixei pra trás, por irresponsabilidade ou por omissão, mas não exijo do outro a mesma reparação, simplesmente porque cada pessoa tem sua história, sua vivência e experiência e não cabe exigir do outro algo que só deve ser exigido de si mesmo."
Não muda a estrutura da sociedade, mas muda a atitude perante si próprio e perante a sociedade, e este é um grande passo para diversas transformações.
O cuidado de si é o
início de um caminho que leva ao cuidado do outro.
Escrito por Alessandra da Silva Cavagna
Psicóloga Clínica e Social
CRP: 06/146634
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